quarta-feira, 12 de julho de 2023

NÃO SEJA FORTE O TEMPO TODO

 




O que significa, de fato, ser bom?

Ser bom é praticar atos de bondade o tempo todo?

Mas, o que é bondade?

Muitas pessoas confundem o verdadeiro valor e significado desta virtude. Ser Bom é virtuoso, pois a Bondade é uma virtude.

Porém, é necessário compreender que ser bom não significa carregar o mundo nas costas, assumir a responsabilidade daquilo que também pertence ao outro.

Ser bom é reconhecer que não somos perfeitos e que temos o nosso lado sombrio e que isso nos faz ser quem somos.

O que é mais grave é que as pessoas muitas vezes praticam a auto-sabotagem e se julgam culpados por toda a maldade presente no mundo.

Se as pessoas parassem de se culpar por tudo o que acontece de ruim, com toda certeza, a taxa de pessoas diagnosticadas com depressão cairia consideravelmente.

Somos condicionados a acreditar que o mundo é um lugar justo e que precisamos ser bons em tudo e o tempo todo. É impossível ser bom o tempo todo! Somos seres humanos e isso implica que somos imperfeitos e que a qualquer momento podemos errar. E está tudo bem!

Ficar se culpando, acusando a si mesmo, se julgando e condenando o tempo todo por tudo o que acontece de ruim gera desequilíbrio e pode desenvolver um estado de depressão.

É normal ser fraco. Não se pode ser forte o tempo todo.

É natural ter medo. Sem medo não haveria coragem.

É humano se sentir triste. Sem a tristeza não poderíamos reconhecer a alegria.

 

A felicidade perderia o seu significado se não fosse equilibrada pela tristeza.

(Carl Gustav Jung)

 

Não queira ser herói o tempo todo. Seja apenas você!

 

Evandro Rodrigo Tropéia / Instituto Freedom

Psicólogo Clínico / CRP: 06/143949

OS TIPOS DE SONHOS NA VISÃO DA PSICOLOGIA PROFUNDA


 

A priori, inúmeras pessoas afirmam que sonhar é algo natural e que os sonhos, na maioria das vezes são bobagens e que não deveríamos nos preocupar com as mensagens que eles nos trazem.

Na visão da Psicologia Analítica proposta por Carl Gustav Jung (1875-1961) o sonho é uma ponte que liga o consciente e o inconsciente. Por ser esta ponte, os sonhos consistem num material de extrema importância no contexto da psicoterapia.

Robin Robertson (2021) nos sugere em seus estudos que os sonhos não são uma exclusividade da espécie humana e que as outras espécies também podem sonhar. As pessoas que são apaixonadas por animais podem observar que suas criaturas quando estão em estado de sono gemem, fungam, agitam a cauda, movimentam as patas e que todos estes movimentos podem nos mostrar que eles estão sonhando.

O sonho na concepção analítica pode ser:

·         Inaugural;

·         Arquetípico;

·         Compensatório;

·         Premonitório.

O Sonho inaugural consiste naquele tipo de sonho que temos quando entramos numa nova etapa da vida ou recomeçamos algo como um novo emprego, um novo estudo ou o início da meia idade, por exemplo.

Os sonhos arquetípicos são os sonhos que possuem natureza transpessoal. Neste tipo de sonho, os mitos, os símbolos e as imagens se manifestam de maneira fascinante. (1)

Quando os sonhos são compensatórios entendemos que eles carregam a função de compensar a carência da personalidade e têm a missão de nos advertir quanto aos perigos e preocupações que rondam nosso estado de vigília. (1)

Os sonhos premonitórios podem representar uma antecipação daquilo que está por vir. Segundo Jung, os sonhos podem anunciar situações mesmo antes que elas aconteçam. (1)

Pretendo compartilhar aqui um exemplo clássico de sonhos registrados na Bíblia Sagrada. Refiro-me aos sonhos de José, pai adotivo de Jesus, segundo a tradição cristã. No evangelho de Mateus, capítulo 1, versículos 19 e 20, um anjo apareceu em sonhos a José, dizendo que ele não deveria ter medo de receber Maria como sua esposa, pois o que ela havia concebido foi realizado por obra do Espírito Santo. (2)

Neste relato, podemos ver claramente três aspectos do sonho: o compensatório, o arquetípico e o inaugural.

Compensatório pelo fato de José, naquele momento, estar se sentindo confuso, decepcionado e com medo. Este sonho veio para compensar os sentimentos, pensamentos e as emoções de José naquele momento em sua vida.

Este sonho é Arquetípico ao levarmos em consideração a figura celestial personificada no Anjo e também o menino Deus que haveria de nascer. O sonho também é inaugural por revelar uma nova etapa na vida de José.

Ainda no Evangelho de Mateus, no capítulo 2, versículo 13, o anjo novamente aparece a José e lhe exorta a fugir com o menino Jesus e sua mãe Maria para o Egito, pois o rei Herodes tinha a intenção de matar a criança. Aponto aqui a característica arquetípica, novamente expressa na personificação humana, e também a premonitória, pois este sonho estava antecipando uma situação ameaçadora que estava por vir. (2)

A função geral dos sonhos é restituir o equilíbrio de nossa psique. Por esta razão, não deveríamos ignorá-los e muito menos afirmar que são bobagens. Pelo contrário, os sonhos são muito significativos e fazem parte de nossa totalidade como pessoa humana.

É preciso criar o hábito de anotar os sonhos, elemento por elemento, conforme eles forem emergindo em nossa consciência.

 

Evandro Rodrigo Tropéia / Instituto Freedom

Psicoterapeuta – CRP: 06/143949

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

(1)               Léxico dos Conceitos Junguianos a partir dos originais de Carl Gustav Jung. Organizado por Helmut Hark (2000)

 

(2)               Bíblia do Peregrino. Edição de Estudos. Ed. Paulus. 2017.

 

Robert, Robin. Guia Prático de Psicologia Junguiana. Um Curso básico sobre os fundamentos básicos da Psicologia Profunda. Ed. Cultrix. 2021.


quarta-feira, 12 de abril de 2023

AUTOCONHECIMENTO E AMOR-PRÓPRIO


 




Quero iniciar este artigo compartilhando um pensamento de muito valor:

 

“Você me diz: Todos os dias eu descubro coisas novas sobre mim.

Eu te respondo: Agora você está começando a se conhecer.

Quando se ama deveras (...) sempre se encontram detalhes para amar ainda mais.”

 

(Josémaria Escrivá. Sulco 420. Personalidade)

 



Descobrir-se a si mesmo a cada dia é a estrada que conduz ao amor.

O autoconhecimento trata-se do mergulho em si mesmo que é extremamente importante para a prática e a profundidade do amor.

À medida que vamos descobrindo coisas novas sobre nós mesmos, vamos nos amando cada vez mais. Quanto mais amamos, mais crescemos. Quanto mais se cresce, mais se conhece. Esta é a lei da vida!

É necessário se amar em cada detalhe e se deliciar com cada nova descoberta que a vida vai nos proporcionando.

O desenvolvimento sadio da personalidade humana se dá através do autoconhecimento e do amor.

Até mesmo a Psicanálise através de Sigmund Freud nos diz que é preciso amar para não adoecer.


Muito mais do que uma simples frase, atribuída a Sigmund Freud, estamos diante de uma grande verdade declarada, um lema de vida.
A ausência do amor nos torna frágeis, patéticos e incapazes de qualquer tipo de compreensão, gerando assim o ódio que nos torna doentes.

No Evangelho de Mateus, no capítulo 22, versículo 39, Jesus nos ensina o maior de todos os mandamentos:


"Amarás o próximo como a ti mesmo."
(Jesus Cristo)

 

O Amor começa por mim mesmo, se eu não me amo, não posso amar ninguém. Se meu ego for vazio, assim também será o meu coração, incapaz de amar, de compreender, de dar e receber o perdão sem medida.

O autoconhecimento é a peça fundamental para a solução desse problema. É preciso aprender a lidar com o negativo da mesma maneira que lidamos com o positivo. Isso não é milagre! Isso deve ser uma meta!

Os problemas e os sofrimentos que surgem em nossas vidas nunca vão acabar. Isso é fato! A principal forma de enfrentar as dificuldades e acima de tudo vencê-las consiste em modificar a nossa maneira de enxergar as situações. Não é a dificuldade que você deve fortalecer e sim a si mesmo.

E como vou conseguir realizar essa tão complexa tarefa?

A resposta não está em mim, não está no outro. Ela está dentro de você mesmo. O autoconhecimento é o único caminho.

 

 

 

Evandro Rodrigo Tropéia

CATIVAR PARA EDUCAR

 






A Palavra de Deus nos fala:

Aquele que dá ensinamento a seu filho será louvado por causa dele” (Eclesiástico 30,2)

A catequese começa no lar. É a missão dos pais transmitir aos filhos conhecimento e orientação. No entanto, os filhos só prestarão ouvidos aos conselhos dos pais se tiverem estima e admiração por eles. Os pais precisam conquistar os filhos.

O filho que admira o pai, o segue e ouve seus conselhos de maneira natural.

São João Paulo II em uma de suas alocuções nos exortava que “educar é conquistar o coração, animá-lo com alegria e satisfação em busca do bem”.

De acordo com o professor Felipe Aquino (2018), o bom pai e o bom professor é aquele que sabe cativar. O bom pai e a boa mãe são aqueles que os filhos têm orgulho deles.

Cativar, eis a palavra chave!

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” (Antoine de Saint-Exupéry)

Muitos pais confundem autoridade com autoritarismo, gerando revolta na vida dos filhos. Ter autoridade não é ser autoritário. A autoridade é exercida pelo ato de cativar, pelo afeto e pelo respeito. Existem pais também que são frios, distantes e negligentes, gerando sentimentos de angústia nas crianças e nos adolescentes.

Dom Bosco (2021), um dos maiores Santos educadores e muito querido pelos jovens, nos ensina que existem dois tipos de Sistema de Educaçao: O Sistema Preventivo e o Sistema Repressivo.

O Sistema Preventivo consiste no carinho, no afeto, no acolhimento, na correção fraterna e principalmente no diálogo firme e amoroso. Esta é a verdadeira autoridade que os pais devem exercer.

Já o Sistema Repreensivo nos remete ao autoritarismo com castigos físicos, baseado no ódio, que podem até mesmo gerar agressividade e sentimentos de vingança nos jovens. Este nunca funcionou e nunca funcionará, pois projeta adultos depressivos, vingativos e traumatizados. Além disso, este sistema provoca o que chamamos de vazio existencial e futuramente pode ser preenchido pelas drogas e pela criminalidade.

Um bom e uma boa mãe conquistarão seu filho pelo respeito que lhe dedica, pelo tempo precioso que gasta, pelo conforto e pelo colo que oferecem no momento da aflição, pela ajuda prestada quando ele sente dificuldade na escola (mesmo que você não entenda nada da matéria, pelo menos mostre que está com ele), e principalmente pelo amor que se demonstra pela família.

Tenha sempre um bom tempo para seu filho.

Valorize, acredite, elogie, acolha e compreenda.

Quem não cativa, não conquista e quem não conquista, não educa!

 

Evandro Rodrigo Tropéia

Ministério da Catequese

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

Prof. Felipe Aquino. Educar pela conquista e Pela Fé. Ed. Cléofas. 2018

 

Antoine de Saint-Exupéry. O Pequeno Príncipe. Ed. Paulus. 2015

 

Dom Bosco. Escritos Pedagógicos. Um manual para pais e educadores. Ed. Companhia de Jesus. 2021

quinta-feira, 19 de maio de 2022

ENSAIOS SOBRE O AMOR

 


Ao amor pertencem a profundidade e a fidelidade do sentimento, sem os quais o amor não é amor, mas somente humor. (C.G. Jung, 2005)

 

O amor pra ser amor necessita ser profundo e fiel. Se não for profundo e nem fiel, ele não passa de uma maldosa brincadeira.

Amar é uma viagem misteriosa onde cada um encontra o outro, e por trás do outro, encontra-se a si mesmo. Falar sobre o amor é confrontar com o inexplicável e dar voz ao mundo imaginário de nossos próprios fantasmas.

Segundo o membro da Associação Italiana de Psicologia Analítica, Aldo Carotenuto (1994), todo discurso referente ao amor se torna o discurso sobre si mesmo, sendo assim, a confissão mais íntima.

Para Carotenuto (1994), a adesão imediata ao objeto amado é um dos fenômenos característicos da experiência amorosa. Somos intensamente cativados pela presença e pela proximidade do outro. Quando estamos diante do amado experimentamos um sentimento incrível de plenitude. A presença do outro se torna uma fonte de bem-estar e inúmeras possibilidades.

O amor vive e se alimenta do que acontece em nós, daquilo que carregamos em nosso interior. A interioridade que menciono se refere ao próprio desejo que carregamos em nós.

De acordo com Aldo Carotenuto (1994), quando nos apaixonamos por alguém, o estado de enamoramento nos coloca sempre diante de algo incompreensível. Podemos definir que o amor é uma busca pela verdade interior que pertence a mim mesmo. Assim, na experiência amorosa somos iluminados por significados físicos e psicológicos. O universo daqueles que se amam é aberrante e inexplicável.

Conforme o apontamento de Carl Gustav Jung (2005) o amor se configura na forma de Eros, sendo um sentimento profundo que provoca o confronto com o nosso próprio ego. A partir da experiência do amor nos amadurecemos e ampliamos o campo da nossa consciência.

Aldo Carotenuto (1994) afirma que o amor também se caracteriza por uma alteração da nossa relação com a realidade. Para o autor, estar alterado significa que a forma psíquica na qual carregávamos perdeu a sua função em determinado momento. Tal fato nos remete a pensar que o amor nos sugere transformações físicas e psicológicas, sendo este movimento de mudança praticamente inevitável.

Sabemos também que na experiência do amor o elemento mais forte deste movimento psíquico é a projeção. Projetamos no outro aquilo que idealizamos e carregamos dentro de nós mesmos.

De acordo com Carotenuto (1994), o maior erro que podemos cometer é pensar que o outro nos seduziu, na verdade eu fui seduzido por minhas próprias imagens que o outro foi capaz de evocar.

Através de tudo o que nos foi proposto até aqui podemos supor que o que eu amo, de fato, jamais será completamente meu. O amor verdadeiro é aquele que nutre e liberta, ao passo que o falso amor é aquele que suga e sequestra.

Conforme os estudos propostos pelo professor Renato Dias Martino (2013), o conceito do amor é o mais respeitável de todos os conceitos dentro da ordem das reflexões. Somente através do amor é que poderá surgir qualquer esperança.

Só podemos nos tornar verdadeiramente seres humanos a partir do momento que somos nutridos pelo afeto contido na experiência amorosa. Aprendemos o que é o amor quando entramos em contato com o outro. Através do contato com o amado, posso também encontrar a mim mesmo.

O amor em si é a fonte geradora, criadora de todas as coisas. Portanto, todo amor verdadeiro profundo é um sacrifício, movido pela entrega. O próprio Carl Gustav Jung nos deixa uma profunda reflexão:

 

O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levarmos a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério.” (Carl Gustav Jung, 2005)

 


Diante da idéia que nos foi proposta por Jung (2005), é possível ponderar que o amor em sua totalidade deve ser levado a sério. Quando levamos o amor a sério, consequentemente seremos recompensados por essa força tão inexplicável capaz de gerar e mover todas as coisas.

 

Em um relacionamento amoroso é importante permitir que o outro participe da maneira dele. Somos livres, no entanto, não possuímos as pessoas. Temos apenas amor por elas e nada mais.

 

Evandro Rodrigo Tropéia 

Psicoterapeuta

CRP: 06/143949

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Carotenuto, Aldo. Eros e Pathos: Amor e Sofrimento. Ed. Paulus. 1994

 

C. G. Jung. Sobre o Amor. Ed. Ideias & Letras. 2005

 

Renato Dias Martino. O amor e a Expansão do Pensar. Ed. Vitrine Literária. 2013