terça-feira, 13 de outubro de 2026

INDIVIDUAÇÃO E POESIA

 





Individuação

 

Caminho para dentro, 

onde o silêncio mora, 

e encontro, sob máscaras, 

quem sou quando ninguém olha.

 

Abraço a minha sombra, 

sem medo do que ela diz; 

até a parte esquecida 

também deseja ser feliz.

 

Deixo cair os nomes 

que o mundo me ensinou, 

e recolho, pouco a pouco, 

o ser que sempre sou.

 

Não me torno outro alguém, 

nem busco perfeição: 

apenas uno meus pedaços 

numa só respiração.

 

E, ao aceitar minha história, 

com suas marcas e clarões, 

descubro que ser inteiro 

é acolher contradições.

 

Poema: Evandro Rodrigo Tropéia

 

A individuação é o processo de nos tornarmos quem realmente somos, integrando nossas diferentes partes — qualidades, medos, desejos e contradições. Não significa afastar-se do mundo, mas relacionar-se com ele sem perder a própria essência.




Ao longo da vida, muitas vezes assumimos papéis para agradar, pertencer ou corresponder às expectativas dos outros. A individuação começa quando passamos a questionar essas máscaras e escutamos, com mais honestidade, aquilo que existe dentro de nós. Esse caminho pode ser desconfortável, pois exige reconhecer aspectos que preferiríamos esconder. Ainda assim, é justamente essa integração que nos torna mais inteiros.



Individuar-se não é alcançar uma versão perfeita de si mesmo. É aceitar que somos seres em constante transformação. Cada escolha consciente, cada limite estabelecido e cada ferida compreendida nos aproxima de uma vida mais autêntica.

No fim, tornar-se si mesmo é um ato de coragem: deixar de viver apenas como esperam que vivamos e começar a construir uma existência que faça sentido para nós.


Evandro Rodrigo Tropéia

TRISTEZA E O CUIDADO COM O CORAÇÃO

 





“Não entregues à tristeza o teu coração, nem te aflijas com os teus próprios pensamentos.” 

 (Eclesiástico 30, 22)

 

A tristeza é uma experiência humana. Em algum momento, todos enfrentamos perdas, decepções, preocupações e períodos de desânimo. Ela pode surgir silenciosamente ou chegar com intensidade, tornando os dias mais pesados e fazendo parecer que a esperança está distante. A sabedoria de Eclesiástico não ignora essa realidade, mas oferece um conselho profundo: não devemos entregar completamente o coração à tristeza.

Sentir tristeza não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, reconhecer a própria dor exige sinceridade e coragem. Há momentos em que precisamos chorar, falar sobre o que sentimos e permitir que o coração processe aquilo que aconteceu. O problema não está em sentir tristeza, mas em permitir que ela se torne a senhora dos nossos pensamentos, das nossas escolhas e da nossa visão sobre a vida.

A tristeza prolongada pode distorcer a maneira como enxergamos a realidade. Ela nos faz acreditar que nada vai mudar, que estamos sozinhos ou que não existe mais motivo para sorrir. Por isso, o texto bíblico nos convida a cuidar dos pensamentos. Nem tudo o que sentimos corresponde à verdade completa. Um dia difícil não significa que toda a vida será difícil. Uma perda não apaga todas as bênçãos recebidas. Um fracasso não define o nosso valor.

 


“Não te aflijas com os teus próprios pensamentos” é também um chamado para não alimentar preocupações sem fim. Muitas vezes, sofremos não apenas pelo que aconteceu, mas pelo que imaginamos que poderá acontecer. Criamos cenários dolorosos, repetimos conversas na mente e carregamos culpas que talvez nem nos pertençam. Quando fazemos isso, a tristeza ganha força e ocupa um espaço cada vez maior dentro de nós.

 

Isso não significa abandonar a responsabilidade ou fingir que os problemas não existem. Significa aprender a distinguir entre aquilo que podemos resolver e aquilo que precisamos entregar a Deus. Há situações que exigem ação, diálogo, mudança e perseverança. Outras pedem paciência, aceitação e confiança. A sabedoria está em reconhecer essa diferença.

A fé pode ser uma fonte importante de consolo. Entregar a tristeza a Deus não quer dizer negar a dor, mas colocá-la diante d’Ele com honestidade. Podemos dizer: “Senhor, estou cansado”, “não sei como continuar” ou “meu coração está ferido”. Deus não precisa de palavras perfeitas. Ele acolhe a verdade de quem se aproxima com humildade.

 

Também é importante lembrar que não fomos criados para enfrentar tudo sozinhos. Conversar com alguém de confiança, buscar apoio da família, aproximar-se de pessoas que nos fazem bem e, quando necessário, procurar ajuda profissional são atitudes de cuidado. Pedir ajuda não diminui a fé; muitas vezes, é uma forma concreta de reconhecer que precisamos de apoio para continuar.

 


Cuidar do coração envolve pequenas escolhas diárias. Um momento de silêncio, uma oração, uma caminhada, o contato com a natureza, uma conversa sincera ou a retomada de uma atividade significativa podem abrir pequenas janelas de esperança. Nem sempre a alegria volta de uma só vez. Às vezes, ela retorna devagar, por meio de gestos simples e discretos.

 

A tristeza pode ensinar, mas não deve governar. Ela pode revelar feridas que precisam de atenção, mostrar o que realmente valorizamos e nos tornar mais sensíveis à dor dos outros. Porém, quando permitimos que ela controle completamente a nossa vida, perdemos de vista a possibilidade de recomeçar.

A mensagem de Eclesiástico 30,22 é um convite à vigilância interior. O coração precisa ser cuidado, porque aquilo que alimentamos dentro de nós influencia a maneira como vivemos. Se alimentamos apenas medo, culpa e desesperança, ficamos cada vez mais presos. Se buscamos a verdade, a oração, o apoio e a esperança, encontramos forças para atravessar os dias difíceis.



Talvez hoje você esteja enfrentando uma tristeza que ninguém percebe. Talvez esteja carregando lembranças, preocupações ou feridas antigas. Não precisa resolver tudo imediatamente. Dê um passo de cada vez. Permita-se sentir, mas não entregue a sua identidade à dor. Você é mais do que o sofrimento que atravessa.



 


A tristeza pode visitar o coração, mas não precisa construir nele uma morada permanente. Há esperança mesmo quando ela parece pequena. Há caminhos que ainda não foram vistos. Há consolo disponível e novas possibilidades esperando o tempo certo para nascer.

 




Que a sabedoria de Eclesiástico nos ajude a acolher a dor sem nos rendermos a ela, a cuidar dos pensamentos e a confiar que, mesmo depois de períodos difíceis, a vida pode florescer novamente.

 

 

Evandro Rodrigo Tropéia